Psicologia da Obediência e Identificação
Psicologia da Obediência e Identificação
Dinâmicas Psíquicas entre o Eu e o Outro
21/01/2026
Já se questionou por que razão as pessoas obedecem a ordens, mesmo quando estas parecem contrariar os seus próprios valores? A psicologia da obediência procura compreender as dinâmicas entre o indivíduo e as figuras de poder. Este tema, estudado pela psicologia social e pela psicanálise, continua a ser relevante para interpretar comportamentos colectivos no mundo contemporâneo, desde contextos institucionais até dinâmicas políticas e sociais mais amplas.
Stanley Milgram foi um dos psicólogos da área social que investigou o fenómeno da obediência à autoridade, especialmente no contexto pós-Holocausto nos anos 60. O seu objetivo era perceber até que ponto pessoas comuns seriam capazes de ir ao obedecer a uma autoridade, mesmo quando isso entrava em conflito com a sua moral pessoal.
No decorrer da experiência os participantes eram instruídos por uma figura de autoridade (o “experimentador”) a administrar “choques elétricos” numa pessoa (um ator) sempre que esta errasse na resposta a questões colocadas. Milgram constatou que cerca de 65 % dos participantes administrou o nível mais elevado de choque, potencialmente fatal, apesar de saberem que estavam a causar danos graves.
Os resultados destas experiências ajudaram a demonstrar que a obediência não depende necessariamente de traços de personalidade extremos, mas de contextos sociais específicos. Quando a autoridade é vista como legítima, quando a responsabilidade moral é deslocada para uma instância superior e quando a acção é enquadrada como uma tarefa técnica ou administrativa, as pessoas tendem a suspender o seu julgamento ético individual. Este mecanismo ajuda a compreender como sistemas altamente centralizados e burocratizados conseguem funcionar com base na obediência, mesmo em situações moralmente ambíguas.
Milgram demonstrou que pessoas comuns podem infligir sofrimento extremo quando:
• A autoridade é percebida como legítima;
• A responsabilidade moral é deslocada para uma instância superior;
• O contexto social redefine a ação violenta como um dever técnico ou administrativo.
Este mecanismo é base em modelos de governação de centralização absoluta, nos quais o poder se organiza através de hierarquias rígidas, burocracias despersonalizadas e discursos que enquadram atos de violência como necessários para a ordem, a segurança ou o bem coletivo.
Estudos mais recentes em psicologia social aprofundam esta ligação ao mostrar que a obediência não é apenas passiva, mas frequentemente mediada por identificação social. Pesquisas de Philipe Zimbardo, em Haslam e Reicher (2012) sugerem que indivíduos obedecem mais quando se identificam com o projeto ideológico da autoridade. Em contextos de incerteza social, narrativas que prometem segurança, ordem e pertença tendem a reforçar essa identificação, ao mesmo tempo que delimitam quem faz parte do “nós” e quem é percebido como “outro”.
Por outro lado, o conceito de estado agêntico ajuda a explicar como cidadãos, funcionários públicos ou militares em regimes totalitários podem cometer atrocidades sentindo-se meros executores de ordens, e não agentes morais. Esta dinâmica contribui para a banalização do mal, tal como descrito por Hannah Arendt, onde atos violentos deixam de ser vividos como escolhas éticas e passam a ser percebidos como rotinas funcionais.
Tanto nas experiências de Milgram como nas de Zimbardo, estava em causa uma complexa interação de fatores psicológicos e sociais. Assim, o crescimento contemporâneo de movimentos absolutistas pode ser entendido não apenas como um fenómeno político, mas também como um fenómeno psicológico e relacional, sustentado por:
• Medo e insegurança social;
• Legitimação simbólica da autoridade;
• Pressão normativa e conformidade grupal;
• Diluição da responsabilidade individual.
A psicologia social alerta, portanto, que a resistência ao autoritarismo exige contextos que promovam pensamento crítico, responsabilização individual e identificação empática com os outros, pois não são apenas “personalidades autoritárias” que sustentam regimes de força, mas estruturas sociais que incentivam a obediência acrítica.
Do ponto de vista psicanalítico, as experiências de Milgram podem ser compreendidas como a ativação de configurações psíquicas regressivas, nas quais o sujeito abdica da sua função reflexiva e do seu conflito ético a favor de uma autoridade investida de poder superegóico. A obediência extrema observada, não revela apenas conformidade social, mas uma dinâmica inconsciente de submissão ao Super Eu, frequentemente marcada pela fantasia de proteção, ordem e absolvição da culpa.
Em cenários de forte autoridade, o regime explora precisamente esta organização psíquica. A autoridade política assume o lugar de um Super Eu externo, que promete segurança e pertencimento em troca da renúncia à autonomia psíquica. O sujeito deixa de se reconhecer como agente moral e passa a funcionar num estado agêntico que, em termos psicanalíticos, pode ser entendido como uma clivagem do Eu: a ação violenta é dissociada da responsabilidade pessoal e do afeto.
Freud, em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), descreveu como, nas massas, o Eu enfraquece e o Ideal do Eu é substituído pela figura do líder. Esta identificação vertical com o líder, e horizontal com os membros do grupo, cria uma economia libidinal na qual a crítica é vivida como traição e a obediência como virtude. Assim este processo intensifica-se ao erotizar o poder, mobilizando afetos primitivos como medo, ódio e idealização.
A desumanização do “outro”, o estrangeiro, racializado, dissidente, pode ser compreendida como um mecanismo de projeção, aspetos indesejáveis do próprio, são expulsos e localizados num inimigo externo, legitimando a violência contra ele. A obediência à autoridade torna-se, assim, uma defesa contra a angústia, a culpa e o conflito interno. Nesse sentido, a violência não é apenas permitida, mas vivida como necessária à manutenção da coesão psíquica e grupal.
Autores contemporâneos da psicanálise relacional e social sublinham que o totalitarismo prospera em contextos de fragilidade identitária e falha de reconhecimento onde o sujeito procura no líder uma função continente que não encontrou nas suas relações primárias ou nas instituições sociais. A promessa autoritária responde a uma necessidade infantil de amparo absoluto, mas ao custo da regressão, da submissão e da destruição do outro.
Assim, o crescimento destes movimentos radicais pode ser entendido como um fenómeno de regressão coletiva no qual a capacidade de simbolização é substituída por atos, slogans e ordens, e onde a obediência funciona como defesa contra a angústia depressiva.
Neste sentido, a psicologia social alerta para a importância de contextos que promovam pensamento crítico, responsabilização individual e empatia. A resistência a dinâmicas autoritárias não depende apenas de posicionamentos políticos, mas também da preservação de um Eu capaz de de pensar e questionar, tolerar ambivalência, e reconhecer o outro como semelhante. Estas capacidades são fundamentais para uma convivência social mais consciente, plural e humanizada.
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